Olá, brechozeiros! Quem aí já parou para pensar na conexão entre o plástico e a moda? Em um primeiro momento, a associação pode parecer inusitada e incoerente, mas infelizmente tal material está presente na cadeia há muitos anos, tanto como matéria prima, quanto como embalagem de produtos. E, quando descartados, os mesmos contribuem para a contaminação terrestre e/ou marítima.

Para alimentar seu conhecimento sobre este assunto e contribuir para uma mudança de comportamento de consumo, com a finalidade de progredir para uma indústria mais sustentável, é necessário conhecer a realidade da produção atual de produtos de moda.

Nos últimos anos, cada vez mais empresas e indústrias adotaram o conceito de fast fashion, um modelo de criação, produção e consumo de artigos de moda de forma rápida e mais acessível, o que agravou muito a situação do descarte de plásticos e microplásticos no meio ambiente. E não estamos falando apenas sobre a famigerada sacolinha, não. Vem cá que a gente te explica tudo!

Mas o que o fast fashion tem a ver com os microplásticos?

Para que este modelo funcione e se mantenha a lógica da velocidade, do barateamento e da quantidade de produtos, foi desenvolvido e implementado a produção de tecidos contendo microplásticos em suas fibras. Eles reduzem o custo na produção e favorecem a menor durabilidade, contribuindo assim para a rápida obsolescência destes produtos e promovendo um fluxo de compra mais acelerado. Além disso, existem outras implicações, porém, daremos foco nesta problemática. 

Consideram-se como microplásticos as partículas plásticas que medem 5mm ou menos, sendo que sua origem se dá pela quebra de pedaços maiores ou são fabricadas já pequenas. Esse microplástico está presente nas fibras sintéticas, tão abundantes na indústria, como o poliéster, a poliamida e as acrílicas (que são fabricadas a partir de polímeros sintéticos, sem a presença de fibras naturais). São essas fibras que liberam estes microplásticos no meio ambiente, como explicaremos a seguir. Segundo levantamento da Textile Exchange de 2018, o poliéster é o tecido mais utilizado na moda em todo o mundo e cerca de 60% de todas as roupas produzidas globalmente são feitas de plástico. 

Os impactos da produção e consumo de marcas de fast-fashion.

As fibras sintéticas, ao serem tecidas, poderão desenvolver peças de roupa dos mais diversos segmentos, como camisetas, camisas, vestidos, roupas fitness e até mesmo íntimas, e a presença destes plásticos na moda possui muitos efeitos negativos. Por não serem biodegradáveis, essas peças podem permanecer na terra por centenas de anos até sua total degradação, afetando diferentes organismos vivos. Além disso, com a constante lavagem destes materiais, as microfibras contendo estes plásticos são liberadas por meio das máquinas de lavar ou tanques, indo para o sistema de esgoto e chegando aos rios, lagos e oceanos. Essa contaminação, consequentemente, impacta o ecossistema da vida marinha. 

E o fast fashion é o grande responsável pela explosão do consumo de fibras sintéticas, onde as mesmas estão formando um nevoeiro de plástico, que está poluindo, não só os oceanos, mas também a água que sai das nossas torneiras e a água engarrafada.

Em uma chocante publicação do Fashion Revolution Brasil, vemos que um estudo recente mostra que o Ártico está completamente poluído por fibras de microplástico. “A pesquisa, liderada pelo grupo Ocean Wise Conservation Association mostra que mais de 92% dos microplásticos encontrados nas águas do Ártico eram microfibras – 73% deles eram feitos de poliéster e tinham a mesma largura e cores dos usados nas roupas. No Brasil, os microplásticos já chegam a contaminar as águas e a vida marinha dos rios Amazonas e Xingu, onde foram encontrados resíduos plásticos em quase 30% dos peixes da região, conforme pesquisas da UFPA (Universidade Federal do Pará).”

Para 2030, 70% das fibras têxteis serão de plástico. Ações precisam ser tomadas para assegurar o futuro do planeta
Rachel Lincoln Sarnoff

Para 2030, 70% das fibras têxteis serão de plástico. Ações precisam ser tomadas para assegurar o futuro do planeta”, disse Rachel Lincoln Sarnoff em palestra para o BUSINESS OF FASHION VOICES de 2018. Ela cita ainda que lavar uma jaqueta de lã sintética 1 vez, libera 250.000 microfibras plásticas, que por serem muito pequenas, não conseguem ser capturadas através do tratamento das águas residuais da lavagem. Percebe-se aqui a necessidade de tornar a máquina de lavar igual à secadora (que filtra os microplásticos para não irem para o ar) e assim, reduzir ao máximo a contaminação da água.

Microplásticos geram contaminações invisíveis e irreversíveis.

A indústria está engatinhando para mudanças mais significativas?

Apesar de todo um panorama de mudança na cadeia produtiva e de comportamento de consumo, nem todos estão dispostos a fazê-la. Na temporada de primavera/verão de 2018 uma das marcas de luxo mais renomadas no mundo, Chanel, mostrou pouquíssima responsabilidade com o meio ambiente ao fabricar o desejo por um material comprovadamente insustentável, trazendo na sua coleção algumas peças totalmente fabricadas de plástico.

Porém, não só de péssimos exemplos é feita a moda. Podemos trazer alguns casos onde a relação da moda com o plástico foi mais positiva. Um deles ocorreu em 2016, quando a Adidas se comprometeu a parar de usar sacolas plásticas em suas 2.900 lojas de varejo, e as substituiu por sacolas de papel. Logo em seguida, a marca fabricou cerca de 1 milhão de eco-tênis UltraBoost, tendo como matéria prima principal garrafas plásticas, e em parceria com a organização Parley for the Oceans, utilizaram redes de pesca e plásticos descartados nos oceanos e desenvolveram o Primeknit, um poliéster reciclado. Esse tecido é tricotado, pois, por ser feito sob medida, é uma forma de construção que não gera resíduos, combinado com solado desenvolvido em impressora 3D.

Outro caso que segue a mesma lógica, são as roupas feitas de fio Bionic, um poliéster reciclado que foi utilizado na coleção Conscious Exclusive de 2017 pela H&M (uma das maiores redes de fast fashion do mundo).

Lançamento da Adidas fabricado de resíduos plásticos retirados do oceano.

Plástico reciclado ainda é plástico.

A reciclagem é positiva, mas ainda não chega na raiz do problema: o uso de plástico. Para a escritora Marina Colerato “Quando nós olhamos mais de longe e analisamos a história toda, descobrimos que transformar lixo plástico em roupas não só é uma péssima ideia, como também é um atraso quando pensamos em soluções sistêmicas para sustentabilidade na moda. Talvez o lado mais sujo dessa história seja que as marcas de moda sabem disso, mas elas, novamente, não estão sendo honestas e estão vendendo gato por lebre enquanto a maior parte das pessoas acredita que elas estão sendo incríveis por suas iniciativas de sustentabilidade.”

Talvez o lado mais sujo dessa história seja que as marcas de moda sabem disso, mas elas, novamente, não estão sendo honestas…
Marina Colerato

Esta reciclagem é falha e demanda incluir na produção novas matérias primas para alcançar qualidade igual ao produto tradicional. Além disso, independente da peça ser de material reciclado, a matéria prima ainda é plástico e, automaticamente, os microplásticos ainda estarão presentes. Após as lavagens, o processo de contaminação das águas continuará.

A mudança começa aos poucos

Percebe-se que a real mudança é complexa, mas tendo em vista a quantidade de trabalhos produzidos e críticas na área atualmente, acredito que poderemos esperar para uma evolução maior por parte das grandes corporações. Mas, ainda assim, devemos ir contra qualquer tipo de influência que nos fazem trabalhar para pagar coisas que muitas vezes nem precisamos. O desafio é controlar nossos comportamentos de consumo, compreender os impactos desta indústria e buscar por marcas conscientes ou peças de segunda mão. Sabe-se que a maior quantidade de microplásticos é liberada nas primeiras lavagens, sendo as roupas de brechó uma solução inicialmente mais acessível e autêntica para a sua mudança. 

O futuro da moda precisa estar intimamente ligado com a preocupação em relação ao uso de recursos naturais, e a melhor forma de fazer isso é desenvolver novas tecnologias para reciclar de forma global e eficiente, sem desperdiçar os materiais industrializados que são descartados e sanar o uso do plástico.

Se você se interessa pelo assunto e quer entender melhor sobre os plásticos e seus impactos, indico ainda os episódios de “MARES LIMPOS” promovido pelo Menos1Lixo, e um documentário de 18 minutos produzido pela I-D sobre a era do Plástico.

Se você se interessa por consumo consciente e quer mudar seus hábitos de consumo, clique aqui para conferir todos os nossos posts sobre o tema!

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Oie! Me chamo Rafaela Theiss, sou estudante de moda e grande apreciadora de alternativas sustentáveis. Busco contribuir para a mudança no sistema de moda!